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Estou só a dizer coisas ...

um espaço para a reflexão e partilha ...

Estou só a dizer coisas ...

um espaço para a reflexão e partilha ...

as 24 horas não são iguais para toda gente

Tri, 21.02.24

Do ponto de vista científico, sem dúvida que todos nós temos as mesmas 24 horas, isso é incontestável. Mas, do ponto de vista social e económico, as coisas não são assim tão simples.

Creio que todos conseguimos concordar que é completamente diferente alguém de classe média, que tem o seu negócio, por vezes até consegue trabalhar a partir de casa, tem uma empregada doméstica que auxilia nas tarefas de casa 2x por semana e ainda a ajuda dos sogros para ir levar e buscar os miúdos à escola; de alguém que ganha o salário mínimo, que se desloca de transportes públicos demorando, todos os dias, 1h40 para chegar ao trabalho e é responsável por todas as tarefas domésticas, por exemplo.

Ao ler este pequeno descritivo, conseguimos perceber que, claro que o dia de ambas dura 24h, mas não dispõem ambas das mesmas 24h para lutar pelos seus sonhos e objetivos, para cuidarem de si, correto?

Então vamos começar a deixar de lado este discurso motivacional de que todos temos pela frente um novo dia para fazer acontecer, para ser diferente, para impactar, porque, por vezes, não é simplesmente possível. Todos temos um novo dia, é certo, para fazer o melhor que podemos, para sermos gratos pelo que temos porque o futuro pode ser ainda mais brilhante, mas não podemos querer que todos usemos as 24h do dia da mesma forma “produtiva” que a sociedade definiu.

É fundamental reconhecer que as circunstâncias de vida de cada indivíduo podem influenciar significativamente a forma como as 24 horas do dia são distribuídas e utilizadas, apesar de uma gestão de tempo eficaz poder auxiliar e facilitar. Os exemplos acima demonstram que nem todos têm as mesmas oportunidades e recursos para gerir o seu tempo da mesma maneira, seja por falta de condições, de recursos, de apoio, de acesso a certos serviços, etc.

No entanto, tal não significa que seja impossível para alguém numa situação mais desfavorável conseguir fazer uma gestão eficaz do tempo e das suas prioridades, ainda que com desafios maiores e mais exigentes.

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Devemos dar sempre o nosso melhor, sim. Demos aproveitar as oportunidades que a vida nos dá, sim. Devemos perceber que na dificuldade, por vezes, há o crescimento. Devemos aprender e aplicar ferramentas que nos permitam a organização e o foco naquilo que queremos mesmo e assim ter a sensação de controlo do nosso tempo.

O que não podemos é sair frustrados devido à comparação com outras vidas com as quais não podemos comparar; que só mostram aquilo que interessa, e nunca o lado cinzento, que só nos rebaixam, ainda que inconscientemente, porque não conseguimos fazer tanto como eles, não conseguimos ser tão organizados, tão produtivos e o nosso dia parece que não dá para nada, no entanto, nas vidas que vemos os dias são enormes, têm certamente mais de 24h para conseguirem fazer tanta coisa…

Nas comparações só vemos os resultados, não o trabalho e esforço daquela pessoa, o que está por detrás; aquela pessoa não somos nós e os resultados em nós, do mesmo esforço, não dariam a mesma coisa. Comparar só causa ansiedade.

Vamos viver a vida, o melhor que conseguimos e sabemos e, de preferência, vamos aprendendo pelo caminho; assim vivemos cada vez melhor.

que geração estamos a criar?!

Tri, 02.02.24

Uma criança é sodomizada, no dia do seu aniversário, na sua escola por 8 colegas incluindo o seu próprio irmão…se não é um enredo para um filme de terror, então não sei o que é.

Confesso que, atualmente, evito ler noticias, ligar a televisão sequer, porque tudo o que nos chega é negro, é podre, é um retrato da sociedade atual do mais deprimente que existe. Tento pesquisar notícias positivas e quando quero saber como está o mundo vou eu à procura da informação ao invés de deixar que “me entre pelos olhos e cabeça adentro”.

Esta semana, esta notícia chocou-me, incomodou-me, tirou-me o sono…não consigo deixar de pensar, como vai ser o futuro desta criança? Como é que tal acontece na escola? Como está a educação e a cabeça daqueles miúdos a ser moldada para chegar a tal ato de maldade?

Mas se as crianças vão para uma escola, a responsabilidade neste tipo de casos, é da própria escola. Será o ambiente escolar assim tão violento?

Falta de vigilância, falta de paciência, falta de profissionalismo, falta de respeito, falta de civismo…é o que corre nos corredores das nossas escolas. Ainda temos algumas auxiliar “à antiga”, das boas, atentas e atenciosas (conheço algumas, felizmente), mas são tão raras. A maioria dos casos não tem formação e competência para exercer as funções e, para além disso, não querem saber.

Esta faixa etária, pré adolescência chamam, é algo complicada, já todos passamos por lá e sabemos, mas não pode servir de desculpa, há que haver respeito e tolerância…valores base.  Obviamente que, quando acrescemos a isso o facto destas crianças nem sempre terem um ambiente familiar estável e tranquilo, origina que manifestem as suas frustrações fazendo este tipo de 'asneiras' macabras.  

O castigo de tal ato não pode ser limitado a 4 dias de suspensão. 4 dias de férias e depois voltam como se nada fosse. Não! Estes miúdos deveriam ser acompanhados, perceberem o que fizeram, o impacto que tal vai ter na vida de outrem, irem para um colégio inclusive…a escola, acima de tudo, deveria ser punida!

A base do carácter, os valores, a educação e o bom comportamento deve ser passada em casa e na Escola, se a sociedade não endereça estas questões com toda a seriedade, então estará perdida. E não adianta transferir a responsabilidade para a tecnologia, os jogos, as redes sociais e afins, quando o ponto fulcral do problema é a sistêmica desatenção que as crianças têm da sociedade adulta que desistiu de lhes ser exigentes e responsável pelo seu carácter em construção.

Em que mundo estamos, que crianças que deviam brincar com outras crianças e ser felizes com pequenas coisas se transformam em abusadores de um colega e rasgam a sua folha de vida transformando-a para sempre?

Bem como a vida destes 8 miúdos, destas crianças que fizeram o que fizeram e sabemos lá porque o fizeram. Onde foi que a vida lhes foi tão cruel ao ponto de se transformarem nestas pessoas?! E os Pais, que acredito (e espero!) que estejam destroçados sem acreditar no resultado da educação que estão a dar aos seus filhos…ou apáticos e desinteressados, quando uma mãe cujo o filho sofreu o que sofreu numa sexta-feira na escola e só leva o filho ao médico na segunda-feira por insistência e obrigação da CPCJ…tudo está mal nesta história.  

É mais um caso em que a justiça vai falhar, não por incúria, mas por falta de meios, para ajudar e para castigar.

Quando a desgraça se torna banalidade, nasce a indiferença e vai-se o respeito, a empatia e capacidade de olhar para o lado; é aqui que reside o problema desta constante avalanche de crimes e horrores televisivos diários.

É do amor que vem a cura para esta sociedade. Temos de o ensinar pelo exemplo.

isto de errar

Tri, 19.06.23

Se até as máquinas cometem erros, não podemos exigir que os humanos não o façam e sejam exímios. E nas empresas estão humanos. (pasmem-se...)

No outro dia aqui na empresa um colega enganou-se e trocou uma peça que lhe foi pedida, cometeu um erro. E apenas isso, um erro, disposto a corrigir o mesmo de seguida.

Ele foi quase crucificado por isso.

Eu percebo que diferentes erros têm um impacto (e importância) diferente na prossecução da atividade da empresa, há coisas mais graves que outras, ainda assim todos erramos, é inevitável, no entanto, a diferença está na forma como lidamos com isso. (um erro de um médico pode levar à morte de uma pessoa, portanto sim, os erros têm pesos diferentes…)

O erro é sistemático? Erramos mas não estamos preocupados com o impacto dessa falha nem as suas consequências?

Ou corrigimos de imediato, desculpamos e fazemos os possíveis para não prejudicar nada nem ninguém?

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Todos nós cometemos erros, no entanto, enquanto alguns são simples e fáceis de resolver, outros têm uma repercurssão maior. Podem até ser irreversíveis, em algumas situações. Não obstante, sejam quais forem as circunstâncias, precisamos de assumir que errámos, ao invés de esconder e lidar com as consequências dos erros cometidos arranjando a melhor solução possível.

Estamos todos expostos ao fracasso. Esta é uma realidade que pode afetar qualquer área da nossa vida: um amigo desilude-nos; a nossa escolha profissional não foi a mais acertada; perdemos o campeonato de um qualquer desporto; etc.

Não obstante, se assumirmos a falha com a atitude certa, aprendemos, crescemos, saímos mais fortalecidos.

Nós somos seres imperfeitos, eu acredito, mas andamos a vender a ideia da perfeição e toda gente procura a foto perfeita, a relação perfeita, o corpo perfeito…

Quando admitimos um erro, importunamos o nosso ego negativo, que gosta de estar sempre no poder, e vemos isso como um sinal de fraqueza, de ignorância, uma forma de nos menosprezarmos.

Mas é precisamente o contrário, aceitar que temos falhas mostra que realmente somos fortes e humildes para compreender que somos imperfeitos, precisamos de evoluir e estar em constante melhoria e aprendizagem ao longo da vida.

 

Por isso, o erro do colega, de facto, teve impacto fazendo atrasar a obra mas assim que foi detetado, foi prontamente corrigido para minimizar os prejuízos e creio que isso é que é o importante.

 

Isto para lembrar que errar é uma oportunidade de corrigir.

Saber falhar é uma virtude, e das raras diria eu. Vamos todos errar melhor e ser melhores pessoas?

as vidas que nos rodeiam

Tri, 26.05.23

Há sempre histórias que nos encontram para percebermos que não podemos mesmo reclamar do nosso lugar de privilégio...que gratos devemos ser todos os dias.

Esta semana a senhora da limpeza esteve ausente, na minha empresa,  e veio uma colega, da mesma empresa, substituí-la. Eu gosto de conhecer as pessoas, saber quem me rodeia, conhecer as suas histórias e esta semana dispendi um pouco de tempo a falar com ela.

A M. trabalha durante as manhãs nesta empresa de limpeza mas tem um trabalho a full time de onde sai às 2h da manhã.

Tem que fazer a limpeza da empresa cliente que lhe está habitualmente destacada e juntar a isso, a sua vinda aqui à empresa para substituir a colega, durante o tempo necessário.

Para além disso, tem um part-time ao fim de semana onde pode ter que fazer as mais variadas coisas, desde bengaleiro numa festa, divulgação de produtos, etc.

A M. está sozinha com o filho e o dinheiro não chega para as contas, acumula empregos como quem junta cromos numa coleção. A M. passa os dias a trabalhar para que nada falte ao filho, no entanto, a ele, falta o essencial...falta ela.

Ela tem, felizmente, a ajuda da mãe que vai buscar o menino à escola e trata dele até ela o ir buscar às 2h da manhã, mas ...

Que futuro, que esperança, tem esta família?

Qual é o tempo para estar, se as necessidades básicas não estão ainda suprimidas e é necessário trabalhar até à exaustão para ter os mínimos...?

Como encarar o futuro com "um sorriso no rosto"?

Quão gratos devemos mesmo ser, todos os dias, porque mesmo que achemos que nada está "perfeito", que tivemos uma chatice qualquer ... há sempre histórias de superação, resiliência, de luta constante, que nos deixam a um canto.

 

ter a consciência da nossa finitude

Tri, 10.05.23

Eu sei que sempre ouvimos dizer que todos “estamos a morrer”, que “desde que nascemos que estamos em contagem decrescente” e outros clichés do género (e são verdade, eu sei!) mas quando isso se torna palpável, quando esse tempo que nos resta é mensurável, o que fazemos com essa informação?

Fomos criados com medo da morte, um medo quase instintivo, (se não se falar pode ser que não exista, não é?) o desconhecido é algo que nos encanita o espírito, não saber ao certo o que acontece gera-nos angústia pelas perguntas sem resposta que acumulamos. Naturalmente que tentamos evitar a morte e fazemos o possível para que tal não aconteça, no entanto, é a única certeza que temos. É inevitável! (e vai mais um cliché)

O que aconteceria se, de repente, soubéssemos exatamente o dia em que morreríamos? O que faríamos? Como iríamos usar o nosso tempo limitado na Terra da melhor forma possível?

Segundo um estudo realizado por cientistas da Universidade de Bar Ilan, em Israel, o cérebro tem um mecanismo de defesa que nos protege do medo existencial da morte. Ou seja, no momento em que adquirimos a capacidade de perspetivar o nosso futuro, percebemos que num dado momento iremos morrer e não há nada que se possa fazer em relação a isso. No entanto, isso é contranatura, porque aquilo que o nosso organismo biológico pretende é lutar para nos manter vivos, daí afirmarem que o nosso cérebro nos defende da morte.

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Confesso que também tento não pensar muito no assunto, limito a tentar viver a vida o melhor que consigo e me é possível. Como já partilhei por aqui várias vezes, tenho o meu livro da gratidão há anos onde escrevo diariamente. Sou grata todos os dias por acordar neste país, por estar junto da minha família, por ter saúde e uma série de outras coisas. E, efetivamente, todos os dias tenho algo por que ser grata, pequenas coisas mesmo, às vezes sou muito bem atendida no supermercado e já acho isso digno de nota.

Mas ter a consciência que temos que desfrutar todos os dias, estar para as nossas pessoas porque nunca sabemos bem quando é o último … é algo que me custa um pouco a conceber, confesso.

O meu tio tem neste momento três problemas de saúde (não vale a pena entrar em detalhes médicos que são tão complexos que nem eu percebo bem) e não consegue tratar. Qualquer tratamento que faça para um deles, agrava os outros. O último a aparecer foi o cancro que não pode “ver quimio” porque acentua a progressão dos outros dois…e assim, em três meses te dão um prazo de validade…te dizem «se ainda tinhas planos futuros, sonhos por realizar, esquece, porque não dá para prolongar o prazo».

De facto, não há nada que se possa fazer, nada para tomar, basicamente é esperar pelo dia…pelo último dia.

Ele está bastante tranquilo com a sua finitude, quase que conformado…às vezes apetece abanar «podes, pelo menos, ficar um pouco mais triste por partires»?

Mas não regras de como devemos reagir a estas notícias, não há certo e errado nestas coisas, não há procedimentos standard a seguir, ninguém nos diz como nos devemos sentir nestes momentos, como é ficar sem chão…

Não consigo imaginar o que é saber a minha validade, saber o tempo que me resta…o que se faz com essa informação?

Corremos contra o tempo tentando fazer tudo o que temos na lista que escrevemos aos 30 anos? Queremos ver todas as pessoas que nos rodeiam? Ignoramos e vivemos a vida com a rotina normal, sabendo, de antemão, que já não precisamos programar onde vamos na próxima passagem de ano…?

A vida prega-nos partidas, como bem sabemos, difícil é dar a volta e torná-las em oportunidades…

sempre assim fiz e sempre correu bem

Tri, 24.03.23

É daquelas respostas que me deixam fora de mim, como se o facto de termos bem feito algo em determinado tempo significa que tal não pode ser sujeito a mudanças e melhorias, porque “em equipa vencedora, não se mexe”.

Não é verdade, se os tempos mudam, o nosso meio envolvente muda, nós também temos que ir alterando os nossos hábitos, rotinas, manias, forma de fazer as coisas, seja o que for, mas as coisas podem e devem ir evoluindo.

E isso também é transversal à parentalidade, percebo as tias e avós que dão milhentos conselhos de ‘como bem fazer’, mas nem todas essas dicas e mezinhas funcionam hoje em dia, ou fazem sequer sentido.

Há décadas era o melhor que havia, e todos davam o seu melhor, entretanto as gerações são mais instruídas, mais curiosas, e mesmo a forma de educar mudou, ou deveria mudar. (e atenção que não estamos a dizer que os valores base não se mantêm)

Os meus pais faziam-me isso e estou aqui hoje, gordinho e tudo”, adoro estas constatações como se o facto de esta pessoa ter “sobrevivido” à sua infância é motivo suficiente para validar os métodos educacionais dos seus pais como excelentes. E até podem ter sido, atenção, não sabemos, mas também podem não ter sido e está tudo bem, desde que tenhamos essa consciência e façamos algo para mudar isso mesmo.

Mas será que poderia ter sido feito ainda melhor? Ou seja, além de eu ter sobrevivido será que poderia ser uma pessoa mais confiante, decidida e feliz?

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Em diferentes gerações existiram diferentes métodos de educação, pais que batiam, crianças a ficarem de castigo, pouca demonstração de carinho e afeto, crianças deixadas todo o dia na frente de uma televisão, etc.

Foi resultando, foi. Somos todos adultos hoje com as nossas memórias que também incluem, um passeio em família ao domingo, um dia especial com direito a um gelado, uma volta de bicicleta/triciclo.

Todos os pais fizeram o melhor que sabiam com as ferramentas que tinham, não duvido! Mas não implica que tenha sido perfeito e não implica que continuemos a perpetuar alguns dos erros geração após geração.

A parentalidade consciente é um tema fascinante (partilho convosco uma autora que adoro, Mikaela Övén) e eu acho que torna a parentalidade quase num projeto, como se criar aquele Ser fosse um projeto para o qual temos que ter um plano, ter consciência do que vamos fazer e dizer e não improvisar; um projeto para o qual fazemos todo um planeamento prévio com a obrigação de criar o melhor Ser possível, com valores humanos que tanta falta fazem no mundo.

Vamos tentar que não passe desta geração, os gritos constantes, a violência física, os abusos verbais, a manipulação da autoestima, as críticas excessivas.

“Em cada geração, só um pequeno grupo pode mudar o destino da humanidade: os adultos com crianças pequenas.” (Lar Montessori)

Vamos elogiar, incentivar, promover o espirito crítico, ensinar a tolerância e respeito, espalhar o amor, incentivar a partilha.

E isto tudo porque no supermercado uma mãe se passou com o miúdo, que devia ter cerca de 3 anos, como se toda a gritaria e o discurso dela fossem entendidos na perfeição por aquele pequeno Ser que sabe lá o que é inflação, e se pode ou não sonhar com um novo carro de bombeiros.

a moda da positividade

Tri, 20.02.23

“Aprecia as pequenas coisas do teu dia”

“Mantém o pensamento positivo”.

Não é difícil de perceber que o tema felicidade e positivismo está na moda, diversos negócios são criados em torno dessa temática, livros e filmes de autoajuda no Top de vendas das livrarias, um breve deslizar pelas redes sociais e temos imensas frases bonitas de motivação, a quantidade de autores e especialistas sobre este assunto aumenta a cada dia, tudo para nos ajudar a mudar o foco, a conseguir chegar .  

Atualmente, é-nos ensinado que os vencedores mantêm o pensamento positivo, logo, que o nosso sucesso depende da nossa capacidade de evitar ser negativo.

A verdade, é que por vezes pode ser altamente frustrante tentar manter essa positividade.

Os efeitos da positividade são comprovados e podem fazer imensamente bem ao nosso corpo e mente (eu sou adepta, atenção). O problema está em supervalorizar essa positividade como forma de colocar um véu sobre sentimentos, dos quais não queremos falar, ou sobre emoções com as quais não sabemos lidar. 

Para que exista um equilíbrio, durante a vida temos que vivenciar momentos desapontantes, tristes, desencorajadores ou frustrantes. Por vezes, sentimo-nos menos bem sem nenhuma razão aparente e está tudo certo.

E quando a vida nos manda algumas pedras, não pegamos nelas para fazer uma ponte, não, a maioria de nós ressente-se, fica triste, tem momentos de pessimismo, dúvidas e até pânico.

E será que é assim tão mau estes sentimentos e pensamentos aparecerem na nossa vida? Significa que estaremos destinados ao fracasso só porque não vemos borboletas a voar todos os dias?

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E a pressão toda que isto cria já pensaram?! Os “positivos” acreditam que as suas vidas têm que ser maravilhosas, realizadas e plenas, e que tal só se consegue pensando positivo.

E estas ideias estão a ficar tão enraizadas (por todos os workshop e livros que se promovem) que alguém que esteja a passar um período menos bom, que tenha algum tipo de problema ainda fica mais em baixo pois crê que, para além de “já estar tudo estar mal” na sua vida, a culpa ainda é dela, por não conseguir pensar positivo e atrair coisas boas. 

E atenção que eu sou defensora do pensamento positivo, acredito genuinamente que ajuda a alcançar sonhos, tal como sermos gratos diariamente pelas coisas que vamos tendo no caminho, mesmo as más que podem ser momentos de aprendizagem.

Ao longo do último ano tive dúvidas sobre mim, pus em causa os meus conhecimentos (da vida no geral), criei conflitos com a minha área de formação (julgo genuinamente que não é a minha área, apesar de ter estudado para tal, não me apaixona), ia para um trabalho que me desgastava cada dia mais e onde saía frustrada com algumas das tarefas inerentes, algumas crises com a minha irmã, com quem sou incompatível (temos formas de ver, e viver, o mundo antagónicas), tive o meu pai no hospital e duvidei do nosso propósito no mundo … e tudo me ia deitando abaixo, mais e mais, tive um esgotamento quando, na verdade, ainda tinha muitos motivos pelos quais estar grata: eu tinha saúde, tinha a minha casinha e estava a conseguir pagá-la, tinha trabalho, a família junto de mim, fazia o meu voluntariado, conseguia estar com amigos e, portanto, pondo na balança devia estar feliz e contente com a vida. Isso é um facto! Mas não estava.

E hoje perdoo-me pela forma como lidei com tudo; perdoo-me por achar que estava errada ao não estar de bem com a vida com tudo de bom que já me deu; perdoo-me por achar que era fraca, que devia conseguir dar a volta a uma dada situação, quando na verdade, eu simplesmente tinha que viver a situação, o tempo que foi preciso e sair dela mais forte.

Por isso, sim, ter uma mente positiva é algo bom, mas se tivermos um dia mau ou nos sentirmos mais pessimistas, devemos aceitar a situação, que faz parte não estar sempre tudo cor-de-rosa, ao invés de tentarmos bloqueá-la.

Assim, vamos começar a pensar duas vezes antes de darmos conselhos como “não estejas ansioso” ou “vai ficar tudo bem”, que é interpretado como “não sintas essa emoção que é errado” quando na verdade devemos senti-la, processá-la e superar e, depois sim, voltarmos a estar bem e positivos.

Uma dica preciosa que partilho, e que ponho em prática diariamente é praticar a gratidão. Tenho um caderno na mesinha cabeceira e todos dias os dias penso sobre o meu dia e algo pelo que estou grata. Hoje ouvi os passarinhos a cantar e o sol a nascer no passeio matinal com o meu cão (matinal entenda-se 6h da manhã).

É a chamada positividade mais branda, permite-nos aperceber do bom que temos na vida e ir aprendendo a ficar feliz por pequenas conquistas ao invés da euforia passageira.

Acima de tudo, há que entender que entender que o ser humano é formado por um espectro de emoções, e que quando nos permitimos sentir cada uma delas, estamos a ser, simplesmente, normais e saudáveis. Eu demorei a aprender isso, espero que vocês sejam mais rápidos.  

mas chegar atrasado é moda?

Tri, 08.06.21

E ninguém me avisou.

Não quero apontar o dedo a ninguém nem tornar isto numa questão regional, mas, todas as minhas reuniões no Sul (é que seja com quem for) começam tarde, ou tenho muito azar, ou é hábito.

(eu sei que isto é uma terra de trânsito crónico, mas já todos sabem disso, portanto convém sair mais cedo!)

De uma forma geral, cada vez mais noto uma tendência crónica de todas as pessoas para não chegarem a horas…pensei que os confinamentos e reuniões à distância de um clique tivessem melhorado isto (até porque se só precisamos fazer um clique para começar, bem que podemos chegar à hora marcada) mas parece que não.

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Quarto-escuro

Tri, 13.05.21

Vocês lembram-se? Digam-me que sim, que não fui só eu.

Estava este fim-de-semana a conversar com o meu sobrinho sobre a interação que tem com os seus amigos, o tipo de brincadeiras que fazem hoje em dia (inexistentes diga-se), constatando que o normal para ele é “estar com o pessoal” à distância.

E não, não por causa do covid. E sim porque se habituaram a falar por mensagens, a conversarem através de microfones quando estão todos a jogar um qualquer jogo on-line e quando estão efetivamente juntos não têm o à-vontade para falarem, para desabafarem, para dizerem o mesmo que escreveram na mensagem do dia anterior.

 

Isto já era algo que me preocupava mas atualmente com tanto confinamento, temo que isto vá ser um grande dilema da nossa sociedade, a incapacidade de criar relações sociais, de lidar com o outro, de cuidar…

Bem, mas não foi isso que nos trouxe aqui hoje.

 

Vocês lembram-se dos jogos de antigamente que usámos como artimanha para nos podermos aproximar daquele colega mais engraçado a quem queríamos roubar uma beijoca? (não estou nisto sozinha de certeza, não me julguem)

Havia o “bate o pé”, bem atrevidote onde podíamos fazer a ação que nos tinha calhado ou bater o pé e recusarmo-nos e o “quarto-escuro”. Mas quem é que inventou estas coisas? (pergunto-me eu hoje a sorrir perante algumas memórias) O “quarto-escuro” era um jogo às escuras, onde o objetivo era tentar encontrar alguém e identificar às apalpadelas (leram bem: às apalpadelas … mas com respeito atenção!) e quando um casalinho se encontrava aproveitava para roubar uns beijitos.

Tudo bastante inofensivo, diria eu, e algo inerente à curiosidade da idade e da descoberta dos próprios corpos e dos outros.

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E dizem vocês, “mas e lembras-te disso agora porquê?” (pareceu-me que vos ouvi perguntar)

 

Pois que acho que estes adolescentes (e pré-adolescentes) já nem desses jogos precisam de tão explícitos que são. São um contrassenso, na verdade, por um lado contidos nas palavras, não criam relações, não fazem amigos verdadeiros (daqueles com quem vão poder contar mesmo e não daqueles que só estão prontos para a festa ou para parecer bem nas fotos), não se dão a conhecer verdadeiramente com receio das represálias, do escárnio ou rebaixamento, no entanto, conseguem ser demasiado físicos. E por físicos entenda-se, andarem quase nus na rua (não deixam grande espaço para a imaginação não) e serem demasiado sexuais em plena via pública.

Moro perto de escolas e as coisas que eu já assisti…ou eu sou muito púdica e não soube acompanhar a evolução dos tempos ou isto não é de todo normal, é crescerem demasiado rápido, é nem disfrutarem de ainda serem criança e pré-adolescentes. (eles não sabem, mas depois têm o resto da vida para serem sempre adultos … criança é que não!)

 

Mas é de mim, que me custa a entender isto e acho que é demasiado ou partilham da mesma opinião? Posso ser só eu que “parei num outro tempo” e considero que há tempo para tudo na vida, temos várias fases e etapas por algum motivo, portanto cada coisa a seu tempo.

Miúdos à nossa imagem

Tri, 20.04.21

Tenho discutido muito nos últimos tempos por causa dos estudos do meu sobrinho e do meu primo (têm diferença de poucos meses). Acontece que os pais de ambos querem impor o que eles devem estudar, o que é melhor para eles ... Mas quem garante o que é melhor para dada criança? Lá porque algo foi bom para mim, ou para alguém, não significa que vai funcionar naquela criança.

Todos os seres são diferentes e têm objetivos e necessidades diferentes (mesmo que ainda não os tenham descoberto).

E atenção que eu percebo que devemos zelar e proteger as nossas crianças sempre, desejar o melhor para elas e que nunca lhes falte nada, aconselhar e encaminhar o melhor possível mas temos que aprender quando parar...

(Isto porque os tempos são outros e as coisas vão evoluindo, nós vamos evoluindo e pensamos nestas coisas, noutros tempos não seria assim...ai se a minha avó ouvisse estas ideias...)

Hoje em dia somos super protetores em relação às crianças; quem é que chega a casa todo borrado e de joelhos esfolados porque andou a brincar na rua?! Ninguém. E porque a segurança da rua também já nem permite. (já para não falar do bicho cujo-nome-estamos-fartos-de-pronunciar)

Um fator chave para o seu crescimento é a experiência, é passar pelas coisas e não esperar que lhes contem ou mostrem num vídeo; é sentirem-se queridas e não rodeadas de coisas, ou seja, dispendermos tempo para estar, brincar e ensinar ao invés de só dar. (Tenho para comigo que muitos adolescentes recorrem à violência como resposta, por falta de carinho ao longo do seu crescimento, de tempo e atenção)

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Portanto, o que as crianças necessitam é do nosso tempo para as ajudarmos a manifestar e aprimorar as virtudes que "trazem de fábrica" em vez de tentarmos moldá-las ao que achamos que devem ser.

Isto para chegar ao que respondi à minha família porque é o que acredito: eduquem, descubram aquilo em que a criança se destaca e proporcionem-lhe os recursos necessários para exprimir o seu talento. É o que de melhor podem fazer por eles.
Deixem de incutir ideias como " vai para X que tem muitas saída", " estuda Y que depois ganhas muito dinheiro". Depois seguem o vosso conselho, crescem e sentem-se frustrados. (mas atenção que não digo que esta seja uma tarefa fácil, nada disso...já aqui falei um pouco do assunto)

O esforço de hoje, amanhã irá poupar a essa criança muito tempo, esforço e dinheiro investidos em perceber o 'sentido da sua vida'. Acreditem em mim. ;)

Os filhos não nos pertencem, aliás a nossa missão em relação a eles consistem precisamente em prepará-los para que nos abandonem. (Não literalmente entenda-se mas que ganhem as suas asas)

E acho que quanto mais cedo se perceber isso, melhor a relação criada, melhor a educação que podemos dar pois analisamos as coisas "com outros olhos".  Mas como já disse noutros textos, é a minha mera opinião, eu não tenho filhos e um dia, se os tiver, posso pagar a minha língua mas tenho plena convição que, se um dia os tiver, vou estar consciente e convicta do que devo fazer, por muito dificil que seja (ou sem paciência) e basicamente encaminhá-los apenas no caminho que é o deles e que ninguém deve mudar.

 

Bem, quando isso acontecer, venho aqui fazer um update vá.  ;)