quando a vida abranda por dentro
Há dias em que tudo desacelera por dentro, mesmo que o mundo continue a correr lá fora, como se nada fosse.
Já aqui vos tinha falado um pouco do meu tio. Sim, está pior, está a definhar. Devagar. Silenciosamente. E nós cá vamos assistindo a este adeus que não tem data marcada, mas que já se adivinha.
A medicina faz o que pode — já não para curar, só para aliviar e nós, impotentes, só tentamos que ele sinta o mínimo de desconforto possível.
É estranho pensar nisto enquanto o mundo continua com pressa, enquanto todos continuamos com os nossos afazeres, responder aos e-mails, desligar os alarmes, correr para o ginásio, ir às compras, levar o miúdo à natação e, assim, seguimos...distraídos. Sempre a adiar as visitas, os jantares em família, os telefonemas que nunca acontecem, o café com aquele amigo que 'havemos de marcar pha, já não falamos há muito'. Achamos sempre que há tempo, mas não há. Ou se há, é sempre menos do que julgamos.
Nós temos tentado 'travar' o tempo (como se tal fosse possível) para recuperar algum tempo perdido, quando a família não se juntava porque havia outros compromissos e achávamos que no mês seguinte ainda iamos a tempo ... temos juntado os irmãos regularmente, temos partilhado histórias e memórias, temos percebido como foi uma vida vivida, com dificuldades e, mais tarde, alguma folga fruto de muito trabalho e suor. Mas temos tentando, estar presentes; aproveitar o momento juntos...nunca sabemos quando será o último.
A verdade é que a vida passa mesmo depressa; vivemos tantos anos mas parece sempre que passou a voar, que falta sempre tempo para fazer mais alguma coisa. Ainda há pouco tempo, tivemos o exemplo disso, dois jovens cheios de sonhos, com a vida pela frente, com esperança e desejos, deixaram-nos precocemente e com a sensação de injustiça, duas vidas lavradas tão de repente, tão cedo...quando ainda tinham tanto para fazer.
Mas assim é a nossa vida, num dia está tudo normal, no outro, já nada é igual. Num momento estamos ali a rir às garagalhas, numa conversa da rotina, num almoço partilhado como tão bem sabemos fazer, e no outro já estamos no corredor de um hospital a tentar encontrar ar entre suspiros e memórias.
Hoje, mais do que nunca, sinto que precisamos de parar. Parar de correr, de adiar, de fingir que somos eternos e precisamos de viver com mais presença, com mais entrega, com mais verdade e menos distração, com mais Amor.
Porque, no final, só o Amor importa, é o que levamos desta vida: o Amor que demos e recebemos, os momentos que soubemos saborear e guardar no coração.
Vivam mais, vivam com Amor.