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Estou só a dizer coisas ...

um espaço para a reflexão e partilha ...

Estou só a dizer coisas ...

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reflexão # 119

Tri, 29.09.21

"Faulkner disse acerca de Hemingway: «Que se saiba, ele nunca usou uma palavra que fizesse o leitor ir ao dicionário.» Hemingway interpretou isto da seguinte maneira: «Pobre Faulkner. Será que ele julga mesmo que as grandes emoções nascem das grandes palavras?"

by João Tordo

in "Manual de Sobrevivência de um Escritor"

reflexão # 118

Tri, 15.09.21

"As pessoas consideram muitas vezes que a escrita de um romance começa pela ideia. A bem dizer, um romance começa, antes de mais, por uma vontade: a vontade de escrever. Uma vontade que toma conta de nós e contra a qual não há nada a fazer, uma vontade que nos desvia para tudo o resto. A esse desejo constante de escrever chamo doença dos escritores. Pode-se encontrar a melhor das intrigas romanescas, mas, se não houver a tal vontade de escrever, não se vai a lado nenhum."

by Joël Dicker

in "O enigma do quarto 622"

 

“Não ter quem se lembre sequer de nós é um duro golpe na nossa existência”

Tri, 30.08.21

O mote que me despoletou esta reflexão foi dado pelo João, sem mesmo ele saber, num dos comentários que fez aqui no blog, porque é uma frase que me tocou de tão verdadeira e por conhecer quem a viva.

Sou voluntária já há muitos anos e já passei por diferentes projetos com diferentes áreas de atuação, nos últimos 7 anos “estagnei” na associação onde me encontro atualmente e um dos projetos nos quais estou inserida é o acompanhamento de idosos em situação de isolamento da cidade do Porto.

E tenho que vos confessar que é uma realidade chocante.

Primeiro é chocante conhecer alguns dos buracos (literalmente) em que alguns vivem, pequenas casas, sem condições, onde chove lá dentro, onde a casa banho ainda é na rua (como era a da minha avó, está certo…mas as coisas vão evoluindo, não é verdade?), onde às vezes entrar 2 ou 3 voluntários lá em casa, já é sinal de casa cheia (porque fica mesmo cheia, não cabe mais nada …não entendo como é que em tempos moraram lá 10 pessoas ou assim).

Segundo porque muitas destas pessoas estão completamente desprovidas de atenção e cuidado, são completamente negligenciadas pela sociedade. Atenção, algumas delas têm algum apoio da Junta de Freguesia ou assim ou de uma Santa Casa (?) mas mesmo para isso é preciso terem dinheiro e as reformas são de trezentos euros (às vezes um pouco mais…na loucura), mal dá para comer quanto mais para pagar “luxos” de ter alguém a ir ajudar na higiene ou ir entregar uma refeição decente por dia.

Terceiro são pessoas que não têm família ou qualquer tipo de retaguarda familiar, por diversos motivos porque efetivamente já são velhinhos (e bem fofinhos, às vezes) e todos à sua volta foram indo e eles lá se vão lamentando “Todos se vão e eu aqui. O que é que eu ainda ando cá a fazer?”; ou porque não criaram o seu núcleo familiar mais próximo, do género, ou não casaram, ou não tiveram filhos, ou eram filhos únicos, ou seja, só tinham tios, padrinhos e afins que, obviamente, também sendo mais velhos que eles a vida se encarregou de os levar primeiro; e por último o cenário dos que têm família mas completamente desligada, pessoas que não falam com os filhos há 30 anos, que nunca conheceram os netos (ou talvez numa foto que uma vez receberam por correio…) e esses são os que custa um pouco mais.

Custa na medida em que não me cabe a mim, nem a nenhum voluntário, fazer juízos de valor (de todo!) mas custa-me aceitar, por vezes. Se é fácil, não é, porque todos somos seres humanos portanto é um exercício constante que tenho que ir fazendo mas que consigo cumprir e ir isenta de preconceito e juízos de valor.

Eu não imaginaria tal acontecer na minha família, mas não sabemos a história completa daquela família em concreto. Aliás todas as histórias têm sempre dois lados e eu só conheço o do idoso, sempre.

Isto pegando na deixa do João, de facto é duro não ter quem se lembre da nossa existência, e estes idosos não têm…o telefone não toca para saber se estão bem, se estão vivos sequer, o que lhes mantem o alento são as nossas visitas, a nossa presença semana após semana. Somos, muitas vezes, as únicas pessoas com quem falam na semana inteira, é normal que quando vamos embora fiquem, automaticamente, a contar os dias, até ao próximo dia em que vamos voltar.  Se imagino a minha família em condições destas, não imagino; mas há sempre elementos com quem nos damos menos bem e quase consigo entender como se pode chegar a este ponto.

Uma coisa é certa, nós estamos lá para eles e sem julgamentos, porque não sabemos o que se passou naquela família, se há apenas falta de vontade e amor, se aquela pessoa que se demonstra tão vulnerável neste momento connosco foi um sacana durante a vida, enfim…todas as histórias têm dois lados e nós vamos ouvindo as memórias dos nossos idosos, o que eles vão contando, o que querem partilhar, com mais ou menos floreados.

Mas é uma realidade pesada de lidar, por vezes, e estes últimos dois anos foi um grande abanão…perdemos mais idosos nestes dois anos que no tempo todo em que lá estou…e não foi para o covid, eu diria que foi para a solidão…

Mas o mais importante, é saberem que estamos sempre lá, independentemente de tudo o resto, todo o ano. E saberem que, afinal, há quem se lembre deles.

obrigada sapinho

Tri, 17.08.21

O nosso Sapinho brindou-me com mais um destaque, não sei se mereço...mas vou assumir que o sol na moleirinha faz mal (como a minha avó sempre disse) e foi por isso que lá acharam ter algo de útil para destacar.

Obrigada pelo destaque e obrigada a todos os que aqui passaram e os que por cá ficaram.

Sejam bem-vindos a este humilde cantinho onde deve vez em quando há desabafos, reflexões sobre a vida, o estado da sociedade ou apenas crises existenciais.

as mudanças na nossa vida

Tri, 15.08.21

Dizem que as mudanças fazem parte da vida, pelo menos sempre me disseram, e é assim que eu vendo o peixe.

Mas não significa que não custe ou que uma pessoa se habitue sempre.

Nasci em Coimbra, onde sempre fui muito feliz e, para quem não conhece, é como se fosse uma aldeia em ponto grande (como eu digo sempre), onde se conhece toda gente, se cumprimentam todos os que vão passando na rua (ou cumprimentávamos, agora não estou lá, já não sei bem…) e assim conhecia a baixa e arredores, onde me sentia bem porque conhecia toda gente.

A minha mãe dava-me um tostão para ir ao pão como gente grande e eu lá ia dizendo olá a todos p’lo caminho, passando p’lo clube vídeo (está agora o meu sobrinho a coçar a cabeça a pensar o que será um clube de vídeo!?) e com a Ti Altina sempre sentadita à porta.

No entanto deu-se uma mudança, para o Porto…mas vida é feita de mudanças e temos que nos ir adaptando, não é…?

 

Todavia o Porto era uma cidade grande e mudámos para um prédio também de si grande (na verdade, da minha perspetiva da altura pareceu-me gigante…) onde não conhecíamos ninguém, não tinha telemóvel, não havia redes sociais…ainda se escreveu algumas cartas aos amigos mas alguns foram ficando pelo caminho. Dei-me muito mal com esta mudança; a falta de poder andar pela rua e dizer ‘bom dia’ a toda gente (não desfazendo da tremenda simpatia da malta do Norte, atenção); de conhecer os vizinhos que moram mesmo ao nosso lado e a senhora da mercearia de desenrascava 1 Kg de sal mesmo antes de fechar a porta.

Senti falta essencialmente dos amigos, das pessoas, numa fase da vida em que ainda se está a crescer, em que ainda não amadureceste o suficiente para saberes estar bem contigo apenas, em que ainda precisas de pessoas para te afirmares, para te perceberes, para pertenceres...que errado que isso é. Hoje, eu sei isso.

O Porto foi começar toda uma nova vida, tudo de raiz, para toda a família convenhamos (mas eles é que escolheram, portanto …). Mas foi um recomeço de tudo, de rotinas, de amizades, de empregos, de simplesmente estar à vontade na cidade.

 

Lembro-me sempre das grandes mudanças da minha vida, se calhar não são grande coisa comparadas com a história de vida dos meus avós e dos meus pais, mas são as minhas mudanças e impactaram a pessoa que sou hoje. Mudanças de cidade, de faculdade, de casa, de relações, de trabalhos…de facto, a vida é mesmo feita de mudanças, pelo que já devia ser algo natural para nós, mas ainda assim não deixo de ficar com ‘borboletas na barriga’ perante um novo projeto, antes de uma entrevista de emprego, quando vou começar uma nova formação, etc.

Pequenas mudanças, as reações de sempre.

 

Neste momento pondero mudar de trabalho, ainda não sei bem como fazer isso porque parece uma loucura (para qualquer pessoa que esteja de fora parece) porque estou num trabalho estável, permite-me fazer a minha vida, não me posso queixar do que ganho nem do ambiente na empresa mas de facto estes anos permitiram-me perceber que a minha área de formação não me completa. Na altura escolhi o que queria, Gestão de Empresas, ninguém me obrigou e fazia-me total sentido…mas agora que estudei, tentei, experimentei, creio que posso afirmar que não gosto, não me completa, não me satisfaz e gostava de não continuar nesta área.

“Mas e então o que queres tu fazer?”, perguntam vocês. Pois aí é que reside o busílis da questão…não faço ideia, daí me manter no meu porto seguro. Mas tenho vindo a pensar muito nisso e sinto-me, cada vez mais, como peixe fora de água (se é que estou a fazer sentido sequer…).

Nem todos podemos fazer aquilo que sonhamos na vida, mas por vezes temos apenas que nos adaptar e conseguirmos estar melhor mudando a perspetiva das nossas funções e local de trabalho, como já aqui refletimos.

Se tivesse assim um jeito maravilhoso para algo, tipo culinária, já tinha solução e dedicava-me à gastronomia, por exemplo…mas não encontro nenhuma skill escondida dentro de mim que me ajude neste momento de dúvida…continuarei a refletir sobre isto até conseguir chegar a bom porto, espero eu.

eu não preciso de ninguém

Tri, 09.08.21

- “Como assim não precisas de ninguém?”

- “Não preciso. Estou bem sozinho. Estou bem comigo mesmo e não preciso de ninguém.”

- “Sim, mas todos nós precisamos de pessoas, precisamos dos nossos momentos a sós mas também precisamos de estar com pessoas senão piramos…basta veres como foi com uma pandemia p'lo caminho.”

E foi esta a premissa base do café que tive com um amigo há uns dias, que acha que é bom sabermos amar-nos e aprendermos a estarmos a sós, a estarmos bem apenas connosco e então, assim, aprendemos a não precisar dos outros.

Mas até que ponto isto é saudável?

Eu não quero não precisar de pessoas. Eu quero ter as minhas pessoas há minha volta, eu quero ser capaz de sentir saudades e tal só me acontece quando há envolvência e comprometimento efetivo.  

É certo que sempre gostei de me “armar em forte” mas sei que sou muito ligada há minha família e que faço por manter os amigos por perto (ainda que à distância, que hoje em dia se encurta com tanta tecnologia).

Também facilmente me ouviriam dizer ‘Estou bem comigo mesma’, e era verdade, mas tal não significava que não queria pessoas. Gosto muito dos meus momentos de solitude e faço por conseguir tê-los, tal como prezo os momentos de partilha. (principalmente à mesa, tuga que é tuga, partilha à mesa não é?!)

Na minha inocência acho sempre que é nos momentos de partilha que reside a riqueza, que se soubermos estar atentos, aprendemos sempre alguma coisa (não falemos de trabalhos manuais vá, mas de valores e atitudes, vocês percebem-me).

No fundo acho até que algumas pessoas passam pela nossa vida exclusivamente para nos ensinarem a não ser como elas, o que já é um grande feito, e se conseguirmos aprender isso já é uma grande lição.

Mas não podemos achar como o J. que estamos tão bem connosco que nem precisamos de pessoas; nós somos seres sociáveis, claramente que precisamos de pessoas.