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Estou só a dizer coisas ...

um espaço para a reflexão e partilha ...

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26
Mai17

a minha Dª Antónia

publicado por Tri

A minha Dª Antónia tinha 96 anos, uma vida preenchida, apesar da solidão interior que tendia em manchar os seus dias, tinha amigas e visitas.

Foi uma Mulher grande, lutadora, trabalhadora, criou uma filha sozinha e teve a coragem de se divorciar quando tal era recriminado por toda uma sociedade, pela própria família…

 

A sua filha teimava em ligar, todos os dias às 20h00, não tentava distraí-la apenas arranjar algum novo pretexto para ralhar com ela…seria o seu jeito de demonstrar o carinho e preocupação que tinha obviamente para com a mãe.

 

A minha Dª Antónia era uma mulher de sabedoria, com muitas histórias para partilhar e sempre de bom humor e pronta a receber-nos com um sorriso no rosto. Trabalhou arduamente até aos 84 anos, sempre senhora de uma cabeça muito equilibrada, conseguia dar rumo de toda a cidade, e contar-nos o “antes e depois” de todas as ruas; que agora “já não são nada como naquele tempo e estão sempre cheias de pessoas”.  

 

A minha Dª Antónia não era minha, mas é como se fosse...aquele abraço apertado, aquele beijinho com um sorriso, todas as histórias partilhadas, todas as gargalhadas dadas juntas faz com que seja um bocadinho minha.

 

A minha Dª Antónia vivia na casa onde nasceu, onde viveu toda uma vida e onde viu partir todos os seus entes queridos. Não queria sair dali, por mais que a filha insistisse, por mais que as meninas da Santa Casa falassem em lar; não queria sair da sua casa que o seu pai alugou com tanto custo 100 anos antes.

 

Não ouvia de um ouvido, mas insistia em querer saber como ia o mundo, e nós contávamos-lhe (gritávamos até ...) apesar de os dias de hoje “serem muito diferentes; já nem as meninas novas se casam”. Deixou de ver TV, mesmo no volume máximo, dizia que era mais fácil os vizinhos que passavam na rua ouvirem o ‘Goucha’ do que ela própria.

 

Agora a minha Dª Antónia já não está, não está aquele abraço pronto mal se abria a porta de casa, aquele beijinho repenicado, aquele ‘juízo Dª Antónia, nada de ir namorar quando sairmos’, aquela gargalhada com vontade, já não espera por nós…